Curitiba publica edital da nova concessão dos ônibus, com integração fora dos terminais
Edital de R$ 3,9 bilhões divide o sistema de Curitiba em cinco lotes, cria linhas conectoras, traz de volta a Circular Centro e libera a integração temporal.
A Prefeitura de Curitiba publicou, na quarta-feira, 19 de agosto de 2026, o aviso do edital da nova concessão do transporte coletivo da capital paranaense. A concorrência, identificada como FUC 001/2026 e conduzida pela Urbanização de Curitiba (URBS), vai escolher as empresas que operarão os ônibus da cidade por 15 anos a partir de 2027. O pacote prevê R$ 3,9 bilhões em investimentos, divide a rede em cinco lotes e muda uma regra que acompanha o curitibano há décadas: a troca de ônibus sem pagar nova passagem deixará de depender dos terminais e das estações-tubo.
As propostas serão recebidas em 17 de novembro, na sede da B3, a bolsa de valores, no Centro de São Paulo. O leilão está marcado para 26 de novembro, no mesmo local. O edital saiu depois que a 5ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Paraná, que havia suspendido a publicação em junho, autorizou a retomada da licitação.
Como o sistema será dividido
O modelo desenhado pela prefeitura com o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) cria o Sistema Integrado de Mobilidade (SIM), que sucede a Rede Integrada de Transporte (RIT) e substitui os contratos atuais. Dos cinco lotes, dois concentram as linhas estruturais, como expressos, Linha Direta e Ligeirões:
- BRT1, com 20 linhas, voltado principalmente à região Sul;
- BRT2, com 17 linhas, focado nas regiões Norte e Oeste.
Os três lotes restantes são regionais e reúnem as linhas alimentadoras e convencionais que circulam dentro dos bairros: o lote Norte terá 100 linhas, o Sul, 92, e o Oeste, 84. As vencedoras dos dois lotes de BRT também assumem a limpeza e a manutenção das estações-tubo e das plataformas elevadas dos terminais, além dos eletropostos públicos que serão instalados no Capão Raso e no Capão da Imbuia para a recarga de ônibus elétricos ao longo do dia.
Para dimensionar a mudança: segundo a URBS, o sistema atual transporta cerca de 580 mil passageiros por dia útil, com 302 linhas, 22 terminais de integração, 89 quilômetros de vias exclusivas e uma frota operacional de 1.207 ônibus, dos quais 154 são biarticulados.
Integração em qualquer ponto
A novidade de maior impacto no dia a dia é a chamada integração temporal irrestrita. Quem usar o cartão-transporte da URBS poderá embarcar em outro ônibus em qualquer ponto, dentro de um intervalo de tempo definido, sem pagar outra tarifa. Hoje, na maior parte da rede, a integração gratuita só acontece dentro dos terminais ou das estações-tubo, o que obriga muitos passageiros a desvios para trocar de linha. A URBS estima uma redução de 4,7 pontos percentuais no número de transbordos, com viagens mais diretas.
O edital também cria quatro linhas conectoras, pensadas para ligar regiões sem passar pelo Centro:
- Terminal Tatuquara – Terminal Carmo;
- Terminal Pinheirinho – Terminal Centenário;
- Terminal Portão – Terminal Capão da Imbuia;
- Terminal Santa Felicidade – Terminal Bairro Alto.
A linha Circular Centro volta a existir, desta vez com ônibus elétricos convencionais. Há ainda a previsão de um teste de transporte sob demanda, com duração de 12 meses e nove micro ou midiônibus, para avaliar viagens agendadas por aplicativo e rotas ajustadas à procura.
Frota, conforto e custo
A concessão exige a entrada de 250 ônibus elétricos entre 2027 e 2031, 90 deles já no início da operação, concentrados nas linhas de maior demanda. Todos terão ar-condicionado, e a climatização também valerá para os 151 novos ônibus a diesel com padrão Euro 6 que serão comprados durante o contrato. A meta é ter metade da frota climatizada em 2031 e a totalidade em até 12 anos.
Quase todo o investimento (96,75%) vai para a compra de veículos; o restante cobre recarga elétrica e novas estações-tubo. A prefeitura estima uma subvenção municipal de R$ 893,6 milhões, destinada sobretudo à aquisição dos elétricos e aos eletropostos, e um custo total de operação de cerca de R$ 1,25 bilhão por ano.
Remuneração desvinculada da catraca
Outra mudança estrutural está na forma de pagar as empresas. A remuneração deixará de acompanhar diretamente o número de passageiros e o valor da tarifa: a URBS fará o cálculo mensal com base em quilometragem rodada, horas de operação, tamanho da frota, infraestrutura e investimentos, aplicando o desconto oferecido no leilão e o desempenho de cada concessionária. O desenho segue a lógica do novo marco legal do transporte público coletivo, sancionado em junho, que separa o que o passageiro paga do que o operador recebe.
A qualidade será medida por dez indicadores, entre eles pontualidade, cumprimento de viagens, reclamações e estado dos veículos, reunidos no Índice de Desempenho Global (IDG), com nota de zero a dez. Resultado insuficiente pode reduzir em até 3% a remuneração mensal da empresa. O contrato terá revisões ordinárias a cada três anos e uma matriz de riscos.
O modelo também transfere à prefeitura o risco de variação da demanda, ponto que tem sido acompanhado pela imprensa local diante da expectativa de aumento do subsídio municipal nos próximos anos.
O que muda para o passageiro
Por enquanto, nada muda na rotina: linhas, horários e regras de integração continuam os mesmos até que os novos contratos sejam assinados e a operação seja transferida, o que está previsto para 2027. As datas a acompanhar são 17 de novembro (entrega das propostas) e 26 de novembro (leilão na B3).
Quando o novo sistema começar, a principal diferença será poder trocar de ônibus fora dos terminais sem pagar outra passagem, desde que a viagem seja feita com o cartão-transporte da URBS e dentro do tempo permitido. Quem ainda paga em dinheiro ou não tem cartão deve considerar fazer o cadastro para aproveitar a integração. Para entender como planejar trocas de linha, veja o guia Integração e baldeação: como planejar.
Linhas conectoras, Circular Centro e eventuais mudanças de itinerário só passam a valer com a nova operação, e os quadros de horários serão atualizados conforme a URBS divulgar as tabelas oficiais.
Fontes
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