Tarifa zero chega a 143 cidades, mas ritmo cai e oito municípios voltam a cobrar
Levantamento da NTU conta 143 cidades com ônibus de graça para todos e oito que desistiram. Pesquisador contesta a leitura de que a política perdeu força.
O Brasil tem hoje 143 municípios em que o ônibus é gratuito para qualquer passageiro, todos os dias. O número é da terceira edição da pesquisa temática sobre tarifa zero da Associação Nacional das Empresas de Transportes Urbanos (NTU), apresentada em Brasília na quarta-feira, 10 de junho de 2026. Em relação ao balanço anterior, de maio de 2025, entraram 16 cidades na lista. Pela primeira vez, porém, o estudo também contou quem desistiu: oito municípios implantaram a gratuidade e depois voltaram a cobrar passagem.
A leitura da entidade, que representa as empresas de ônibus, é de que a política entrou numa fase de acomodação, freada pelo limite dos cofres municipais. Há quem discorde: o pesquisador Daniel Santini, que acompanha o tema há anos, vê a tarifa zero ainda em expansão.
Os números da pesquisa
Segundo a NTU, o salto aconteceu entre 2021 e 2023, quando 70 municípios aderiram ao passe livre universal. Em 2024, ano de eleição municipal, foram só 8 novas adesões; em 2025, 21. Além das 143 cidades com gratuidade plena, outras 43 adotam modelos parciais, restritos a grupos de passageiros ou a alguns dias da semana, como os domingos.
A maior parte das experiências está em cidades pequenas: cerca de 65% têm menos de 50 mil habitantes. No grupo acima de 100 mil moradores, apenas duas cidades aderiram no último ano, Canoas (RS) e Itaboraí (RJ), o que elevou esse grupo de 12 para 14 municípios. São Paulo lidera em número de cidades com tarifa zero, seguido por Minas Gerais e pelo Paraná. No Sul, a NSC Total destacou que Santa Catarina tem oito municípios com gratuidade, entre eles Balneário Camboriú, onde o número de passageiros cresceu 43% depois da adoção.
Quem voltou a cobrar
As oito cidades que desistiram da tarifa zero, segundo o levantamento, são Jaboticabal (SP), Monte Mor (SP), Paulínia (SP), Pirapora do Bom Jesus (SP), Picos (PI), Porto Real (RJ), Tijucas do Sul (PR) e Ubiratã (PR). Todas têm entre 18 mil e 111 mil habitantes, e metade fica no estado de São Paulo.
Em Monte Mor, a gratuidade durou menos de dois anos e foi encerrada em 2025, com a prefeitura alegando inviabilidade financeira; hoje a passagem custa R$ 6, com isenção ou desconto para inscritos no CadÚnico. Paulínia, que teve passe livre nos anos 1990 e depois um modelo parcial encerrado em 2018, cobra atualmente R$ 1.
Há ainda recuos parciais. São Caetano do Sul (SP), que tinha gratuidade para todos, passou a restringir o benefício a moradores cadastrados e a quem já tem direito por lei. A partir de 15 de julho, os não residentes voltam a pagar R$ 5.
De onde vem o dinheiro
O estudo aponta que as cidades médias que sustentam a gratuidade costumam depender de receitas fora do comum: royalties do petróleo em Maricá (RJ), atividade portuária em Paranaguá (PR) e receitas de publicidade e multas de trânsito em São Caetano do Sul. A NTU estima que o transporte por ônibus urbano no país custa R$ 75,7 bilhões por ano e que, numa universalização da tarifa zero, com ao menos 20% a mais de frota para absorver a demanda, a conta subiria para R$ 90,7 bilhões anuais.
Para a entidade, o caminho passa pelo marco legal do transporte público coletivo, aprovado pelo Congresso em maio e que separa a tarifa paga pelo usuário da remuneração das empresas, além de fontes estáveis de custeio e um pacto entre União, estados e municípios. Segundo a NSC Total, o Ministério das Cidades confirmou que o Ministério da Fazenda estuda a viabilidade de um modelo nacional de gratuidade.
A outra leitura
O pesquisador Daniel Santini, doutorando da FAU-USP que mantém um levantamento próprio das cidades com passe livre, contestou a conclusão em entrevista ao Mobilize Brasil publicada em 25 de junho. Pela contagem dele, já são 150 cidades com tarifa zero universal, 17 delas com mais de 100 mil habitantes. Santini contabiliza nove abandonos, e não oito, mas argumenta que isso representa uma taxa de permanência de 94% em cerca de 30 anos de política, o que, para ele, mostra expansão e não retração. Entre as adesões recentes está Jandaia do Sul (PR), com gratuidade desde junho de 2026.
O que muda para o passageiro
Nas cidades com tarifa zero universal, em geral basta embarcar, sem cobrança, exceto quando o município restringe o benefício a moradores, como passou a ocorrer em São Caetano do Sul. Se você mora em uma cidade vizinha e usa o ônibus de outro município, confira no site da prefeitura se é preciso fazer cadastro ou apresentar comprovante de residência.
Nos municípios onde a gratuidade foi suspensa, vale conferir o valor atual da passagem e se existe desconto para estudantes, idosos ou inscritos em programas sociais. O guia Gratuidade e meia-passagem: quem tem direito resume as regras mais comuns, e o texto Como a tarifa de ônibus é calculada explica por que o preço muda de uma cidade para outra.
Como a gratuidade tende a atrair mais passageiros, os ônibus podem ficar mais cheios nos horários de pico. Consulte o quadro de horários da sua linha para escolher viagens menos lotadas.
Fontes
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